Temos falado tanto de Nietzche que me ocorreu um dia desses lembrar de uma frase que havia muito tempo eu lera mas não conseguia exatamente lembrar o local (autor, livro, data) e cuja semelhança com o pensamento do autor de A Gaia Ciência me incomodava e até assustava. Só sabia que não era de Nietzche embora o conteúdo fosse bem nietzcheano. Tratava-se de uma sentença e nesse sentido até poderia o filósofo lhe reivindicar autoria senão fosse o fato de essa frase lhe ser bem posterior - muito posterior, aliás - a frase em questão: o bem e o mal são distinções arbitrárias - caia como uma luva diante de tudo o que se convencionou discutuir a respeito do filósofo alemão seja na classe, seja pelo que a seu respeito falam os professores. Contudo, de quem seria essa admirável sentença?
Até que há poucos dias, passando os olhos por alguns livros da Coleção dos Prêmios Nobel, reencontrei o autor daquela feliz sentença: o escritor francês Roger Martin du Gard (1881 - 1958) autor de O Drama de Jean Barois (1913), obra que lhe valeu o Nobel de Literatura de 1937. Jean Barois como o Jean Cristophe de Romain Rolland (1859 - 1944) e o Wilhelm Meister de Goethe (1749 - 1832) é um romance de formação. Divide-se em duas partes. Na primeira, o jovem e católico Barois confrontado pelo evolucionismo de Darwin acaba se tornando um livre pensador, funda uma revista esquerdista, participa do Caso Dreyfuss e defende a liberdade de pensamento até os derradeiros extremos. Contudo, depois de um acidente que quase lhe custa a vida, o livre pensador se vê diante da possibilidade de poder voltar atrás (isto é, tornar-se outra vez um católico) já que no exato instante da colisão entre sua carruagem e o bonde que vinha no caminho oposto ele faz aquilo que jamais imaginaria àquela altura: uma oração. No momento em que volta a si, Barois redige então o seu testamento intelectual e nesse coloca a sentença que mencionei acima. Temia que numa situação extrema as condições alheias à sua vontade (ou soba as quais ele não tivesse domínio) o fizessem regressar àquele caminho de outrora e por isso redigiu o testamento para reafirmar sesus compromissos e ideais de juventude. Com o tempo seu pior temor de juventude se concretizou e ele lentamente retorna ao seio da igreja da qual havia um dia apostatado, cheio de medos e angústias (e de fato é em meio a angústias terríveis que ele vem a morrer). No final das contas, sua esposa, por ele abandonada na juventude, revirando papéis velhos numa gaveta, encontra o testamento e mais uma vez a frase insólita. Ela treme, hesita, e por fim, mecanicamente, como tudo o mais que tinha naquela gaveta, entrega o texto pernicioso ao capricho das chamas.
Quando pensamos na convenciência de dizer que o bem e o mal são somente distinções humanas, é certo que pensamos e agimos bem nietzcheanamente. Assim fica fácil reduzirmos as misérias e virtudes humanas a um mero jogo de conceitos que podem ser formulados conforme as circunstâncias da ocasião. Senão há o mal, então não há necessidade de se pedir justiça já o mal é somente uma convenção (o que é mal para mim pode não ser para os outros e todas as convenções seriam assim relativizadas até o ponto de que o mal nada mais seria que não a conveniência do outro em relação a um dado ponto de vista). Senão há o mal então tudo o que eu fizer ao outro até o ponto do ódio fica reduzido à condição de um conceito daquele que é vítima desse mal, e que por conseguinte pode dizer que isso seja o mal embora, por exemplo, não o seja para mim. O Mal, desse modo, torna-se metáfora. Isso pode ser exemplificado, por exemplo, pelo Holocausto Judeu. Os assassinos dos camos de concentração não se consideravam assassinos no sentido penal da palavra, e também não achavam ter cometido crimes monstruosos porque o conceito de certo/errado, bem/mal tinha sido escamoteado de suas mentes. Como diz Hannah Arendt: assim como a lei de países civilizados pressupõe que a voz da consciência de todo mundo dita "não matarás", mesmo que o desejo e os pendores do homem natural sejam as vezes assassinos, assim a lei da terra de Hitler ditava à consciência de todos: "matarás." embora os organizadores dos massacres soubessem muito bem que o assassinato era contra os desejos e os pendores normais da maioria das pessoas. No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maioria das pessoas o reconhecem - qualidade de tentação. Muitos alemães e muitos nazistas, provavelmente a esmagadora maioria deles, deve ter sido tentada a não matar, a não roubar, a não deixar seus vizinhos participarem da destruição (pois eles sabiam que os judeus estavam sendo transportados para a destruição, é claro, embora muitos possam não ter sabido dos detalhes terríveis)e a não se tornarem cúmplices de todos esses crimes tirando proveito deles. Mas Deus sabe como eles tinham aprendido a resistir à tentação (Eichmann em Jerusalém, S.Paulo, Companhia das Letras, 2008, p.167). Aqui temos um exemplo (poderia citar muitos outros) do que acontece quando esse conceito prevalesce incontestável na condição humana e tudo fica reduzido a uma questão de interpretação; a uma hermenêutica do sujeito.
Há um filme clássico do Expressionismo Alemão que aborda, acredito que de forma bem acertada, essa questão do mal que existe em cada um de nós e do que acontece quando presunçosamente rejeitamos essa certeza que está na essência da nossa alma. Chama-se M. O Vampiro de Dusseldorff e é um filme de Fritz Lang de 1931. A narrativa tem certa atualidade. Um assassino de crianças aterroriza uma cidade da Alemanha e diante da incapacidade da polícia em se apoderar do infanticida as organizações criminosas juntam forças para pegar o criminoso. No julgamento montado pela cúpula do crime para exemplar o bandido (interpretado de forma comovente por Peter Loore) o infanticida faz uma defesa patética na qual explica o porquê de praticar aquelas monstruosidades, ou seja, porque mata crianças: quando eu ando na rua eu ouço vozes, elas vêem, eu tento lutar, mas não posso, não posso fugir, não posso fugir (...) Quem são vocês para me julgarem? Ladrões? Arrombadores de cofres, prostitutas? Poderiam ser qualquer coisa, poderiam aprender uma profissão, senão passassem de um bando de vagabundos preguiçosos.. Mas eu, eu não posso fugir do que eu sou. Eu não posso deixar de ser o que eu sou. Eu não posso fugir de mim mesmo. isto é algo que está dentro de mim, eu tento lutar, mas não posso fugir, não posso fugir!."
EDSON DOUGLAS DE OLIVEIRA
